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Em dezembro, Golda Meir teria completado 120 anos

Golda Meir

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Nascida em Kiev, na Ucrânia, no dia 08 de dezembro de 1898, Golda Meir emigrou para os Estados Unidos com a família em 1906. De lá, já casada, partiu para a então Palestina. Começou a carreira política na década de 20 e se tornou uma das fundadoras e primeira-ministra do Estado de Israel. Conhecida por suas opiniões firmes, Golda faleceu há exatos 40 anos, quando tinha 80 anos.

Abaixo, um texto escrito em 1959, quando ela tinha 60 anos:

“A primeira coisa de que me lembro em minha vida é do meu pai e o vizinho lá em cima, em Kiev (Ucrânia), pregando tábuas à porta, e meus amiguinhos, filhos do vizinho e eu ali, de pé. Recordo-me como se tivesse acontecido ontem — dos nossos pais pregando as portas, porque em Kiev se espalhara o rumor de que se estava preparando mais um “pogrom”. E nossos ingênuos pais pensavam que só por pregarem uma tábua atravessada na porta poderiam salvar suas famílias.

Não houve “progrom” nesse dia. Seja como for, nos muitos anos que vivi desde então, não posso apagar esse quadro de minha mente. Talvez — se é mister uma explicação lógica para o rumo que tomou minha existência — seja essa a explicação: o desejo e a determinação de salvar crianças de quatro e cinco anos, crianças judias, de experiências semelhantes.

Meu pai teve de partir, e foi para os Estados Unidos, não tinha meios de levar consigo a família. Já que meu pai deixara Kiev, minha mãe e suas três filhas não podiam continuar ali, e voltamos para a cidade natal de minha mãe, Pinsk (Bielorrússia). Eram os anos de 1904, 1905 e 1906, anos dos grandes movimentos revolucionários na Rússia Czarista, e da grande e brutal onda de antissemitismo e “progroms” que se seguiram ao insucesso da revolução de 1905.

Em Pinsk, lembro-me dos cossacos — outra recordação que não consigo apagar da memória. Num beco de Pinsk — e Pinsk era conhecida por muitas coisas, mas principalmente pelas ruas sem calçamento e pela lama que as cobria — lembro-me de uma tarde, bem tarde já, quase ao anoitecer, em que brincava com outras crianças dessas vielas, quando chegaram os cossacos. Não podiam deter-se para que saíssemos do caminho e saltaram os cavalos por cima de – nossas cabeças. E recordo aquelas noites em Pinsk. Morávamos em uma casa vizinha à delegacia de polícia. Todas as noites, rapazes e moças eram levados ao posto policial e pela noite adentro eu ouvia os gritos dos jovens espancados pelos cossacos. Minha família decidiu se reunir a meu pai.

Lembro-me da Primeira Guerra Mundial e recordo-me da notícia de que naquela cidade de Pinsk um grupo de mais de 40 homens foi encostado ao muro da igreja, que ainda tenho na memória. Foram fuzilados por um crime terrível — eram todos membros da Comissão de Auxílio, que recebia fundos da “Joint Distribution Committeé” americana, para distribuí-los aos necessitados da cidade.

Lembro-me das noticias dos massacres de Denikin e Petlura na Ucrânia e dos massacres do período de pós-guerra. Lembro-me das manifestações de protesto de que participei em Milwaukee. E recordo o sentimento de frustração. Marchamos pelas ruas de Milwaukee, enchemos auditórios, ouvimos discursos, fizemos discursos, choramos, e conosco, choraram os que nos ouviam. E os “pogroms” continuaram.

E naqueles dias, dois homens, que são hoje o presidente e o primeiro ministro do estado de Israel (os falecidos Ben Zvi e Ben Gurion), foram expulsos pelo regime turco, do que era a Palestina, com ordem de jamais retornarem a seu país. Foram para os Estados Unidos e falaram de um movimento pioneiro, de jovens que deviam ir para a Palestina, a fim de construírem e lavrarem o solo, assegurarem a dignidade, a existência e a liberdade do povo judeu. Falaram de uma legião judaica organizada para participar da guerra. Os judeus se alistariam no exército inglês que lutaria na Palestina, de modo que esta não nos fosse dada de mão beijada. Participaríamos de sua libertação, para depois possui-la. E recordo como invejei meus colegas homens. Eles podiam ir, não se aceitavam mulheres.

Muita gente me perguntou como decidimos ir para a Palestina. Acreditai amigos: não entendo essa pergunta. Naqueles dias, me parece, era a coisa mais natural do mundo para um jovem, para qualquer judeu, que não se satisfazia com protestar contra massacres, decidir lutar, se havia a mais remota esperança de existir um lugar no mundo em que os judeus pudessem ser senhores de seu próprio destino.

E recordo o primeiro ano que passei na Palestina, num estabelecimento agrícola — um Kibbutz — em Emek Izrael. A maioria dos homens era de americanos que haviam ficado depois do término da guerra. Eram os homens que se haviam alistado na Legião Judaica. De um lado, ficava uma aldeia árabe; do outro lado, outra aldeia árabe, Lembro-me de ter recebido instruções sobre Como viver na colônia. Uma delas era: não saia de casa em noite escura de vestido branco, é bom alvo para atiradores de tocaia nas aldeias árabes. Uma das primeiras coisas que me ensinaram foi para onde me dirigir quando soasse o alarma, e quais eram os meus deveres em caso de ataque árabe.

Lembro-me dos anos 1921, 1923,1929, quando quase todos os estabelecimentos agrícolas se achavam isolados — a cidade de Jerusalém, a aldeia de Ben Shemen e Jad Jafa foram atacadas. E recordo que naturalmente houve tristeza, houve mágoa, mas não houve humilhação. Nossos homens e mulheres, rapazes e moças estavam nos vários lugares onde deveriam estar, com suas armas ilegais, porque então era ilegal um judeu defender a vida — mas nós nos organizávamos ilegalmente. O regime nem podia defender-nos, nem tinha qualquer intenção de permitir que nos protegêssemos — mas nós o fizemos.

O falecido presidente Roosevelt convocou em 1938 uma conferência internacional para tratar do problema dos refugiados, então principalmente refugiados judeus da Alemanha. Compareci. Lembro-me de um relatório após outro, grandes nações do mundo a expressarem muita simpatia pelo povo judeu. Horrorizava-as saberem o que Hitler estava fazendo com o povo judeu. E havia um estribilho depois de cada discurso: “Mas, meu país não pode receber esses refugiados”.

E veio a guerra, o exército de Hitler passou de um pais da Europa a outro. Os judeus fugiam de um país a outro, e Hitler tomava-os, da Alemanha á Áustria, da Áustria à Tchecoslováquia. Imploramos, pleiteamos. De joelhos, pedimos aos ingleses que deixassem entrar judeus: impossível. Estava-se em guerra. Os aliados necessitavam da boa vontade do numeroso povo árabe, havia mais árabes que judeus no Oriente Médio. Toda a simpatia era para nós, mas era necessária a boa vontade do povo árabe. O resultado foi que dezenas de milhares de nossos rapazes e moças se alistaram como voluntários no Exército para combater Hitler e o Grande Mufti de Jerusalém, então líder do povo árabe, dirigiu-se a Berlim para ajudar Hitler.

E lembro-me de quando, pela primeira vez, nos chegaram ao conhecimento os horrores dos guetos, das câmaras de gás. Éramos então, na Palestina, apenas poucas centenas de milhares de judeus. Não podíamos fazer muito, mas podíamos mandar algumas pessoas, entre elas Hannah Szenes. E recordo certa manhã em que entrou no escritório executivo da Federação do Trabalho um grupo de cinco pessoas, dois rapazes e três moças, sendo uma Hanna Szenes. Estavam sendo preparados para ir e saltar na retaguarda das forças de ocupação, entrar em contato com a comunidade judia, levar-lhes a mensagem de que não os havíamos esquecidos, e ajudá-los da forma que pudessem.

Dos cinco só retornaram dois. 1946. Findara a guerra. A democracia derrotara Hitler e o hitlerismo, mas os judeus não podiam ir para a Palestina. Havia destróieres perto do Porto de Haifa, perto das praias de Tel Aviv. Nós implorávamos e pleiteávamos: deixai vir esses judeus. E a comissão anglo-americana indicada para investigar a questão da Palestina recomendou ao Governo britânico uma imigração de 100.000 judeus. E havia 250.000 judeus nos campos da Europa, havia 40.000 homens, mulheres e crianças atrás de arames farpados no Chipre, mas eles não podiam ir para a Palestina.

A comissão recomendou que se admitissem 100.000 judeus, mas o governo britânico não concordou. Chegavam em navios em condições ilegais, mas apenas para serem mandados de volta. Nossos filhos, nascidos no pais, organizavam essas incursões ilegais, promoviam a entrada do que era chamado “a escória do mundo”. A “escória” era rejeitada nas praias da Palestina e nossos jovens iam com esses judeus para os campos do Chipre.

Em 1947, as Nações Unidas tomaram sua decisão. Tão logo isso ocorreu, os árabes da Palestina atacaram, com ajuda de árabes dos países vizinhos. Em meio à guerra, em 14 de maio, às 16 horas de uma sexta-feira, um pequeno grupo reunido em diminuta sala de Tel Aviv proclamou a independência da Palestina judia, a ser chamada Israel. Tomamos então uma grande decisão — que as portas desse Estado sempre estariam abertas a todo e qualquer judeu que nele quisesse ingressar.

Ainda os vejo chegar. Vejo chegarem judeus que não sabiam que alguém poderia falar livremente sem olhar ao redor. Vejo essa gente indesejada tocar essa terra indesejada — e acontece o milagre. Vejo acontecer ura milagre em minha vida, e pergunto aos amigos — eu, filha desse grande mas trágico povo judeu, que tive o privilégio de assistir a isso em minha existência: para que mais, além disso, desejaria viver um judeu de nossa geração?”

Publicado em O Globo

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