Pesquisadores da USP e do Instituto Weizmann dão importante passo para o futuro das terapias oncológicas

A brasileira Gabriela S. Kinker realizou no Instituto Weizmann de Ciências de Israel um estudo com tecnologia de ponta ainda pouco utilizada no Brasil que promete revolucionar a forma como se estudam os tumores.

Tumores são misturas de vários tipos celulares e, muitas vezes, um pequeno grupo de células resistentes pode ser responsável pela falha do tratamento e recidiva do tumor. Agora, um estudo desenvolvido pela cientista brasileira Gabriela Sarti Kinker em colaboração entre pesquisadores do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (IB-USP) e do Instituto Weizmann de Ciências de Israel permitiu um avanço importantíssimo nessa área.

Os cientistas determinaram a importância de certos grupos de células malignas para o crescimento e metástase de tumores e para a resposta a tratamentos específicos. O projeto envolveu uma equipe internacional, incluindo também pesquisadores do Instituto Broad, nos Estados Unidos

O avanço, que pode no futuro derrubar barreiras ao sucesso terapêutico em oncologia, fez parte da pesquisa de doutorado de Gabriela no Departamento de Fisiologia do IB-USP, orientada pelo Dr. Pedro A. C. M. Fernandes que colaborou com o estudo.

O trabalho foi desenvolvido presencialmente em Israel, no laboratório do Dr. Itay Tirosh, do Instituto Weizmann. Seu laboratório é reconhecido internacionalmente por combinar métodos computacionais e experimentais para estudar tumores humanos como um ecossistema complexo, no qual diversas células cancerígenas e não cancerígenas interagem e determinam coletivamente a biologia tumoral e a resposta às terapias.

Para a pesquisa, os cientistas empregaram uma técnica nova ainda pouco utilizada no Brasil, que vem revolucionando o estudo de tumores humanos: o sequenciamento de RNA de células individuais -scRNA-seq. “Há cinco anos isto não era possível” – se entusiasma a Dra. Gabriela, comentando o artigo que foi publicado na conceituada revista americana Nature Genetics.

Esta técnica permite a caracterização aprofundada das células uma a uma e gera uma enorme quantidade de informações. No estudo foram avaliadas mais de 50,000 células de quase 200 tumores. “Para analisar o grande volume de dados utilizamos ferramentas computacionais de bioinformática, disciplina multidisciplinar que aplica conhecimentos da área de exatas para responder questões biológicas complexas” – explica.

Os cientistas descobriram que, em tumores de cabeça e pescoço, a presença de células com um perfil biológico específico está associada a uma melhor resposta a um fármaco comumente utilizado na clínica (Cetuximabe). Com esse achado, pode-se prever quais pacientes vão responder melhor ao tratamento e guiar a estratégia terapêutica utilizada.

A Dra. Gabriela ressalta ainda o valor da multidisciplinaridade, uma das características chave do Instituto Weizmann que contribuiu muito para a sua excelência na pesquisa. “No laboratório de bioinformática do Dr. Itay Tirosh tive a oportunidade de me relacionar com estudantes com expertise diversas como biólogos moleculares, químicos, matemáticos e médicos, o que proporcionou uma troca intensa de conhecimento”.

O doutorado de Gabriela Kinker, incluindo o estágio em Israel, foi financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de S. Paulo (FAPESP). “A capacitação de estudantes brasileiros para a análise dos dados de scRN-seq propulsionará o desenvolvimento dessa área do conhecimento no Brasil” – concluiu a Dra. Gabriela Kinker.

Hoje, ela faz pós-doutorado no laboratório de Imuno-oncologia Translacional, no Centro Internacional de pesquisa do Hospital A. C. Camargo, aplicando a técnica de scRNA-seq para estudar as células do sistema imune infiltradas em câncer de pâncreas. Agora o objetivo dela é identificar novas moléculas alvo para o tratamento de tais tumores.

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