Silvia Lerner lança livro “Arte em Tempos de Intolerância: Theresienstadt”

Filha de sobreviventes do Holocausto, e pós-graduada em História do Século XX, a professora Silvia Rosa Nossek Lerner vai disponibilizar nas livrarias, e de forma online, a publicação “Arte em Tempos de Intolerância: Theresienstadt”, a primeira sobre o tema no Brasil, que aborda a arte realizada no único campo de concentração cultural durante o nazismo: Theresienstadt.

Com 224 páginas, o livro faz uma análise do campo de concentração da cidade de Terezin (que passou a se chamar “Theresienstadt” após a ocupação dos nazistas), na antiga Tchecolosváquia, através da obra cultural produzida pelos judeus no local: música, teatro, poesias, jornais, revistas e publicações. Mas são os desenhos, feitos tanto pelos adultos quanto pelas crianças, que ganham um destaque especial.

“Por meio da arte, é possível recompor um pouco da História antes do Holocausto, entender o momento histórico, bem como conhecer lugares e acomodações onde ficaram aprisionados, seu dia a dia, as condições de vida, as emoções diante das saudades e da incerteza do futuro, a morte permeando a vida e seus significados humano e emocional”, explica a autora, que visitou Terezin e realizou uma longa pesquisa, durante três anos, para escrever o livro.

Criado como um campo modelo e cultural para receber a visita do Comitê Internacional da Cruz Vermelha e persuadir o mundo de que os judeus sob domínio nazista não eram maltratados, o campo de Theresienstadt recebeu escritores, políticos, músicos, cantores, artistas, professores, intelectuais e designers, que deixaram um rico material cultural, dentre desenhos, músicas, peças de teatro, poesias e publicações, que nos fazem entender um pouco da história e da vida no campo de concentração. Ao longo de cinco capítulos, com uma linguagem envolvente, Silvia vai contextualizando o período historicamente e enumerando as diversas manifestações culturais realizadas no local, com imagens dos trabalhos e de documentos de época, assim como nomes que se sobressaíram e seus legados.

Os desenhos eram feitos em antigos formulários, onde as crianças eram orientadas a colocar seu nome e sua data de nascimento. Mais tarde, à direita dos desenhos, foi inserida a data em que a autora foi enviada para extermínio em Auschwitz. “O material disponível, apesar de a maioria das crianças não ter sobrevivido, serve como testemunha silenciosa da riqueza interior de seus criadores em face de seu trágico destino. Mesmo sete décadas depois de realizados, ainda mantém o dramatismo da época e a tragédia que os determinou”, ressalta a autora.

Ao longo do livro, a historiadora destaca e analisa alguns desses desenhos, que são lúdicos e coloridos, retratam flores, borboletas e casas. Entre eles, há um com a imagem de uma casa distante, com um longo e confuso caminho para se chegar até ela. Em outro, a figura de um homem com bigode se mistura a figura de uma casa.

Aluna de Bauhaus, em Weimar, a artista Friedl Dicker-Brandeis (1898-1944) foi a professora de desenho. “Ela percebeu que as crianças necessitavam de uma forma de expressão artística como meio de sobreviver ao caos em que suas vidas se encontravam – trata-se da resistência por meio da arte”, conta Silvia Lerner.

Brandeis também foi a responsável pela preservação dos desenhos, reunindo, em duas malas, mais de cinco mil trabalhos feitos pelas crianças, antes de ser deportada para Auschwitz, junto com a maioria delas, em outubro de 1944. “As malas, que foram poupadas pelos nazistas, ficaram encostadas em uma prateleira, pegando poeira por dez anos. Em 1955, foram abertas e descoberto seu conteúdo”, relata Silvia. “Os desenhos dos adultos retratavam a vida no gueto, ao passo que os das crianças nos contam sobre seus pensamentos, sofrimentos, medos, sonhos e esperanças, a vida que deixaram para trás, brincadeiras, famílias e amigos que nunca mais encontraram”.

O ateliê de desenho de Theresienstadt era dirigido pelo artista Bedrich Fritta (1906-1944), gráfico e caricaturista de Praga, que conseguiu salvar 200 desenhos, criados por ele e por outros artistas, enterrando-os no solo dentro de um cofre de ferro, que foi descoberto após a guerra. “Os desenhos causaram consternação e dor porque narravam a verdade que os nazistas escondiam: filas de deportados fustigados pela chuva, pelo frio, pela neve; crianças com olhar aflito; músicos que fingiam tocar, com rostos sem expressão, como que aguardando a morte. Vê-se, mais uma vez, que a arte ali produzida era a expressão do que os afligia”, afirma a autora. “Estudar essa produção artística é entender o desenho como espelho da memória, em que se coloria em preto e branco, desenhava-se o indecifrável, narrava-se o inenarrável, sem uma linguagem definida para transmitir o inimaginável”.

O livro estará disponível a partir do dia 29 de janeiro nas livrarias.
E será vendido online com preço promocional de R$69,00: acesse.

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