Convenção anual da CONIB destaca a pluralidade da comunidade judaica

O presidente da CONIB (Confederação Israelita do Brasil), Claudio Lottenberg, abriu, no auditório da Unibes Cultural, a 52ª Convenção anual da instituição com o tema “Honrando o passado, construindo o futuro” destacando o papel da organização na sociedade brasileira. “A CONIB é um órgão de representatividade política, embora seja absolutamente apartidária. Porque é uma comunidade que no fundo tem um papel de interface com a sociedade brasileira, sendo um recorte dela. Nós temos judeus de esquerda, judeus de direita e judeus mais ou menos liberais. Portanto não existe uma identidade política da comunidade, mas um desejo verdadeiro de viver politicamente a vida da sociedade brasileira”, disse ele, ao agradecer a presença de autoridades, rabinos e de outras personalidades convidadas.

O diretor da CONIB Marc Tawil foi o apresentador do primeiro dia do evento, que neste ano teve formato híbrido e atingiu um público amplo de milhares de pessoas. Na primeira noite, o roteiro começou lembrando o Holocausto e seguiu falando sobre como Israel seguiu como uma nação forte e arrojada.

O ator Dan Stulbach foi o primeiro a falar em mensagem de vídeo. “Ao longo da história, a comunidade judaica foi testada inúmeras vezes: tentaram nos separar, então nos unimos; tentaram nos calar, então difundimos a nossa cultura; tentaram nos exterminar, então nos multiplicamos; tentaram nos oprimir, então declaramos nossa independência. Hoje, depois de termos passado pelo Holocausto e tantas e inúmeras provações, o povo judeu tem um porto seguro em Israel e suas comunidades espalhadas pelos quatro cantos do planeta. Só no Brasil, a CONIB representa os 120 mil judeus que aqui vivem, cada com seu jeito, suas ideias, suas convicções. E é essa pluralidade que nos fortalece e essa diversidade que faz com que estejamos prontos para o que der e vier”.

O presidente de Israel, Isaac Herzog, também se fez presente, em mensagem por vídeo. Quem também esteve presente desta forma foi Chella Safra, que destacou a “importância de nos mantermos unidos em torno de questões que nos são essenciais”. Depois foi a vez do presidente do Yad Vashem, Dani Dayan, que destacou a importância e a responsabilidade da organização.

A noite seguiu mostrando o trabalho de Inge Buhs, fundadora da ONG Ner Yaacov, em Jerusalém; o depoimento do sobrevivente do Holocausto Yehuda Freund; e a conversa entre a estudante Lívia Fernanda de Souza Mendes, que em 2013 venceu um concurso de redações sobre Anne Frank promovido pela CONIB e Fisesp com o apresentador Marc Tawil.

O jornalista e colunista da Folha de S.Paulo Jaime Spitzcovisky, debateu com o diplomata israelense em Dubai, Ilan Stulman sobre questões políticas do Oriente Médio e a psicóloga e professora Sofia Débora Levy juntamente com o coordenador-geral do Museu do Holocausto de Curitiba, Carlos Reiss participaram de um debate com a plateia.

O médico e presidente da Sociedade Beneficente Israelita Brasileira Albert Einstein, Sidney Klajner e Salomão Ioschpe, presidente da Associação de Amigos do Technion Brasil também estiveram presentes no palco da convenção. Dror Bin, CEO da Agência de Inovação de Israel falou sobre o país das startups, e a artista e ilustradora Michelle Lerner, da Marcha da Vida, Juventude e Futuro; o advogado Daniel Gerstler, também participaram.

A CONIB rendeu tributo ao legado deixado pela da historiadora Anita Novinsky (1922-2021) e por José Meiches (1926-2021). Falecido em 18 de outubro, José Meiches foi lembrado pelo presidente da CONIB, Claudio Lottenberg. Meiches esteve à frente da CONIB por duas gestões, de 1979 a 1981 e de 1982 a 1984. Foi presidente também da Chevra Kadisha. Como ressaltou Lottenberg, durante a sua atuação, José Meiches soube dignificar o papel da comunidade judaica.

A homenagem à Anita Novinsky (1922-2021) foi feita pela Secretária de Estado de Desenvolvimento Social de São Paulo, Celia Parnes. “É uma honra poder fazer esta homenagem à historiadora, pesquisadora. Uma mulher à frente de seu tempo e de uma generosidade quando dividia seus conhecimentos sobre toda a história, toda a historiografia luso-brasileira e a nossa história, a história do povo judeu”, disse a secretária. Para Claudio Lottenberg, “Anita foi especial. Nós devemos, o Brasil deve, o redesenho da história da imigração brasileira”. A família de Novinsky estava presente no auditório da Unibes Cultural. A fiha, Sonia, falou sobre como sua mãe tentou ver as sementes do judaísmo no Brasil, pelo passado, pelo presente e pelo futuro.

Também foi Celia Parnes quem fez a homenagem a Celso Lafer, que completou 80 anos em agosto. Ela destacou a contribuição do advogado, jurista, professor, membro da Academia Brasileira de Letras e ex-ministro das Relações para a construção democrática de nosso país. Lottenberg ressaltou que Lafer é um dos maiores brilhos de intelectualidade não só da comunidade judaica, mas do país. Presente, junto com sua família, o professor agradeceu: “O reconhecimento é um prêmio, é uma dádiva, é algo que nos é dado pela generosidade dos outros, como esta homenagem. E, se além do reconhecimento, se soma o acolhimento, ele tem um significado todo especial. É este acolhimento que recebo nesta solenidade da CONIB”.

O segundo dia foi conduzido por Benjamin Back, apresentador do SBT, que abriu a programação lembrando as conquistas de atletas israelenses na Olimpíada de Tóquio e a homenagem feita aos atletas israelenses vítimas do ataque terrorista em Munique, em 1972. “Pela primeira vez na história das olimpíadas, eles foram homenageados com um minuto de silêncio. O reconhecimento demorou, mas veio. Foi uma mensagem importante, de que não vamos tolerar qualquer tipo de antissemitismo”, destacou.

Claudio Lottenberg falou sobre “o momento especial para nós, enquanto comunidade judaica”, e o formato híbrido do encontro “com a proposta de transmitir uma unificação dos temas que nos são caros”. Lottenberg destacou a importância dos temas do encontro e, em especial, a participação de jovens. Isso é maravilhoso e contagiante para nós que temos a responsabilidade de transmitir valores judaicos – ‘Ledor vador’, de geração à geração’, que é uma natureza do judaísmo – e trabalhar pela continuidade”. “Temos um compromisso eterno com aqueles que nos legaram uma tradição, um passado e nos fizeram caminhar até aqui”, pontuou.

Em mensagem por vídeo, o ator e diretor Caco Ciocler enviou uma mensagem: “A comunidade judaica sempre foi o resultado de união, de resiliência e de solidariedade. Temos raízes profundas e o que nos une é o senso de coletividade, de irmandande, de pertencimento. Estamos vivendo um momento peculiar, perigoso, da história, em que a facilidade de acesso à informação e à desinformação é exatamente a mesma e tentam nos convencer nas redes sociais de que o mundo está dividido entre sins e nãos. Nós judeus temos o dever histórico e moral de não cairmos nessa cilada. A polarização vem dividindo o mundo e tem dado voz a grupos de xenófobos que propagam o discurso de ódio. E nós sabemos muito bem onde isso vai dar”.

Atividades importantes foram destacadas: falaram neste momento Jader Tachlitsky, coordenador de Comunicação da Federação Israelita de Pernambuco; Jaime Samuel Benchimol, diretor-presidente da Sociedade Fogás Ltda.; Marcos Strozberg, membro da Sociedade Israelita do Ceará; que contaram sobre algumas ações das federadas. Celso Lafer, professor emérito da USP e ex-ministro das Relações Exteriores e do Desenvolvimento, Indústria e Comércio foi homenageado pelos seus 80 anos, em mensagem feita por Celia Parnes, secretária do Desenvolvimento Social do Estado de S.Paulo.

Daniel Bialski, advogado e vice-presidente da CONIB; Daniel Kignel, advogado e membro do Comitê Jurídico da CONIB e a advogada e diretora da Conib Andrea Vainer participaram do debate sobre Racismo, Discurso de Ódio e Antissemitismo e, em outro painel, sobre Liberdade vs. Discurso de Ódio participaram Alana Rizzo, gerente de Políticas Públicas do YouTube no Brasil, Milton Beck, diretor geral do Linkedin na América Latina, e Rony Vainzof, advogado e secretário da CONIB.

Sobre Judaísmo e Humor, Benjamin Back intermediou um bate-papo descontraído com os humoristas Daniel Zukerman, e Fábio Rabin. A convenção contou ainda com a participação do apresentador Luciano Huck, em um quadro que reuniu a visão das crianças sobre um mundo ideal e David Broza, cantor e compositor israelense.

Junte os humoristas Fabio Rabin e Daniel Zukerman e acrescente a animação do apresentador Benjamin Back. O resultado é uma conversa descontraída e divertida. Apesar da informalidade, o bate-papo também foi sério. Eles falaram sobre influências, se há limites para o humor, e atuação nas redes sociais.

Rabin e Zukerman contaram que têm em comum a influência do comediante norte-americano Jerry Seinfeld. Mas, Zukerman destaca também a veia judaica que se tem em casa, as brincadeiras familiares como uma fonte constante de referências. “Tem essa brincadeira entre a gente, que vem da mãe judia, da nossa cultura”, ele acredita. E acrescenta “A gente precisa saber brincar com a gente”.

E qual seria o limite para fazer humor. Zukerman explica que precisa se levar em conta o contexto. Onde a piada vai ser feita. Uma coisa é uma piada feita em um teatro. Outra coisa, se ela é feita em um espaço público, por exemplo. “Tem um limite, a gente tem que ter bom-senso”. Para Rabin, “não existe limite para o humor, pelo amor de Deus não faça isso. Assim como não tem limite para o terror, para o drama, é um gênero, não é a opinião de uma pessoa”. Mas ele ressalta: “Agora, algumas pessoas se apropriam disso para fazer discurso de ódio”.

Neste campo, Zukerman diz que quando você recebe um comentário antissemita, não se deve compartilhar o conteúdo. “Quando você compartilha, você tira de contexto e muitas vezes acaba justamente colocando a mensagem antissemita. Tem uma responsabilidade”. Ele também disse que muitas vezes, uma conversa com o autor do comentário, é importante. “Tem antissemitismo. Por outro lado, todo mundo tem um baita de um respeito pelos judeus. É no diálogo, é na comunicação que se deve ir”.

Reunidos no clube A Hebraica de São Paulo no terceiro dia, líderes das 14 federadas falaram sobre realizações e desafios de suas gestões. Também participaram do último dia da Convenção o presidente da Delegação de Associações Israelitas Argentinas (DAIA), Jorge Knoblovits, e o diretor do Departamento de Assistência Comunitária da instituição, Danilo Gelman. Knoblovits disse que a comunidade judaica argentina conta com o apoio de políticos e de autoridades, mas que sua organização se empenha para formar novas lideranças.

O embaixador israelense Daniel Zohar Zonshine e o cônsul de Israel em São Paulo, Rafael Eidrich, prestigiaram a 52ª Convenção Anual da Conib. O embaixador falou, no terceiro e último dia do encontro, sobre os principais objetivos de sua missão no Brasil. “Queremos colaborar com a CONIB e com a comunidade judaica brasileira, além de fortalecer uma agenda positiva e promover os laços com o Brasil nas áreas de ciência, ecossistemas de inovação, segurança e na cultura”. Ele falou sobre o “antissemitismo, que infelizmente não desapareceu e ainda está presente em alguns discursos públicos”. “Temos um longo caminho a percorrer nesse sentido. E é importante que o Brasil tenha entrado como observador na Aliança Internacional para a Recordação do Holocausto – IHRA”, destacou.

O cientista político, professor e escritor Heni Ozi Cukier e o professor Celso Lafer debateram, mediados pela diretora da CONIB, Ruth Goldberg, sobre a polarização na sociedade e ameaças à democracia, que deve se acentuar com as eleições de 2022. Ao final, os presentes também participaram dos debates fazendo perguntas.

Heni citou o uso das redes sociais que facilitam a comunicação rápida e imediata dando amplitude à desinformação. “O meio (virtual) em que vivemos criou o ambiente propício à polarização e à desinformação”, disse ele. Outro aspecto citado por ele foi o da ideologia política. “O populismo busca criar uma divisão na sociedade entre o bem e o mal. “O populismo não considera a pluralidade e tem grande receptividade na América Latina”, destacou. Heni também citou o aspecto cultural como forma de facilitação do crescimento do populismo. “No Brasil existe uma teoria que diz que não se deve discutir política, futebol e religião”. “Isso facilita a promoção de um comportamento passional, cego e irracional, que favorece a polarização e o apoio ao populismo e à desinformação”.

O professor Celso Lafer pontuou que “há uma erosão das práticas democráticas, que favorece a polarização e o discurso de ódio”. Para ele, a sociedade acaba ficando dividida entre o “governo das leis, do respeito à Constituição, e o governo dos homens”, em que as instituições políticas são desacreditadas e enfraquecidas”. Ele afirma que a democracia requer a confiança da sociedade nas instituições e destacou o importante papel das redes sociais nesse contexto.

Celso Lafer também destacou a importância da iniciativa da CONIB de criar, em parceria com a Fundação Getúlio Vargas, um Guia de Análise de Discurso de Ódio”.

Lafer falou sobre a responsabilidade das redes sociais, destacando a necessidade de essas plataformas adotarem regras e filtros para impedir as fake news e o negacionismo. Heni concordou com Lafer, pontuando que as redes sociais se tornaram um ambiente anárquico.

Confira a programação completa em:

Primeiro dia da Convenção: acesse.

Segundo dia da Convenção: acesse.

Foto: Eliana Assumpção

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Digite os caracteres da imagem no campo abaixo *