“Obrigado, Brasil”, afirma Claudio Lottenberg, presidente da Confederação Israelita do Brasil, sobre imigração judaica

Vivemos um período muito triste do nosso país por causa da pandemia do Coronavírus. Mas é nos momentos mais sofridos que mais precisamos buscar perspectivas que ofereçam esperança e conforto para todos.

Nós, judeus e judias do Brasil, temos marcado no nosso DNA desafios e sofrimentos enormes. Neste Dia Nacional da Imigração Judaica, queremos agradecer mais uma vez pela acolhida de nossos antepassados e, humildemente, compartilhar com o nosso país num momento tão duro o que aprendemos ao longo de séculos de dificuldades e perseguições.

Foram o forte espírito comunitário e o foco na educação e no conhecimento que permitiram às comunidades judaicas espalhadas pelo mundo sobreviverem e eventualmente prosperarem, mesmo diante de perseguições atrozes. Acreditamos que o espírito comunitário e a busca do conhecimento são também o caminho para a superação da crise atual.

Os judeus começaram a chegar ao Nordeste do Brasil no século 16, com as primeiras caravelas. Fugiam de uma Europa que os perseguia e os forçava a escolher entre a conversão e o desterro ou mesmo a morte. Muitas vezes também aqui encontraram perseguição e morte, principalmente pela Inquisição, mas resistiram, sempre escudados no espírito comunitário e na busca de conhecimento.

Depois dos portugueses, judeus aportaram no Recife com os holandeses e lá, com liberdade de culto, fundaram a primeira sinagoga das Américas (1630). Foi essa mesma comunidade do Recife que, encerrado o período holandês no Brasil, fundaria a primeira sinagoga de Nova York e teria papel fundamental na formação da nova cidade (à época chamada de Nova Amsterdã).

Vieram depois ao Brasil judeus do Marrocos, judeus da Europa Oriental, judeus de outros países árabes. Essa diversidade foi captada pelo cronista carioca João do Rio, que, em 1904, escreveu sobre a comunidade judaica na metrópole brasileira: “Havia gente morena, gente clara; mulheres vestidas à moda hebraica de túnica e alpercata, mostrando os pés, homens de chapéus enterrados na cabeça, caras femininas de lenço amarrado na testa”.

Essa diversidade é também uma das grandes forças do judaísmo, no mundo e no Brasil. Há entre nós judeus de todos os tipos, de todas as faixas de renda, de todas as orientações políticas e ideológicas, de todas as profissões. Tolerar as diferenças nem sempre é fácil ou natural. Mas é fundamental. E buscar entre as diferenças aquilo que nos une possibilita não só fomentar a tolerância e pacificar conflitos, mas também construir caminhos para as soluções.

Apesar de o governo de Getúlio Vargas ter fechado o país para a imigração judaica justamente no período da Segunda Guerra, o Brasil em geral permitiu que imigrantes judeus reconstruíssem suas vidas por aqui, e nossa comunidade, pequena e diligente, retribuiu com muito amor e muito trabalho. Aqui criamos nossas famílias, criamos amigos, criamos empresas, hospitais, escolas, desenvolvemos carreiras profissionais nas mais diversas áreas. Por isso a comunidade judaica brasileira está tão bem integrada à comunidade maior de brasileiros, com diversidade e dedicação ao país generoso que acolheu nossos pais, avós, bisavós.

Neste momento, em especial, nos dá muito orgulho ver tantos infectologistas de nossa comunidade trabalhando incansavelmente na luta contra a pandemia. É nosso dever como brasileiros, é nosso dever como judeus.

Obrigado, Brasil. Neste momento em que o nosso país tanto precisa de espírito comunitário e conhecimento, conte com a comunidade judaica brasileira em toda a sua pluralidade. Agora e sempre.

Fonte: Estadão

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Digite os caracteres da imagem no campo abaixo *